Perna Surda
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Perna Surda Imagem gerada pelo Gemini, a IA do Google, baseada em minha descrição. |
Estamos em 2026. Bom, pelo menos quando escrevo, é quando estou.
Onde estou? Neste momento, na cidade onde trabalho. Mas quando pensei no
texto, estava na cidade onde moro. Ou onde morava. Espero ainda estar morando
nela.
Falo assim pois tudo depende da referência. Não apenas do ponto, mas também do
momento de referência.
Depende também da língua. Que também é uma referência.
Voltemos a 2026. Mais precisamente por volta do dia em que esse texto começou
a ser formulado em minha mente. Era dia 18 de junho, uma quinta-feira. Essas
duas últimas informações não são tão importantes em separado. O que importa
delas é que a data mostra que a Copa do Mundo estava rolando.
Morando nos EUA e assistir à copa, mesmo que aparentemente possa ser difícil,
não é. Como existem muitos hispânicos que habitam este país, e, eles sendo
tão, ou mais fanáticos por futebol que nós, Brasileiros, onde tem demanda, a
gente encontra a oferta.
Isso, entretanto, nos deixa com algumas opções um pouco diferentes do que
podemos considerar comum.
A primeira, e mais óbvia, é procurar a transmissão em inglês. Para a maioria
dos jogos da Copa, existe essa opção em um canal específico, de maneira
gratuita, via antena ou serviço de tv a cabo. Só que, como nem todos os jogos
estão disponíveis nesta opção, para assistir alguns, tem-se que ter a
assinatura de canais extras... Eu não pago pelo canal extra, então, vamos à
segunda opção.
Para os que, como eu, nunca estudaram a língua de Cervantes, apesar de
entender o básico, devido, claro, à similaridade e à exposição à língua - o
Espanhol não é algo com o qual me sinto tremendamente à vontade. Entretanto,
como a necessidade não é de falar, mas apenas de compreender o básico, está
tudo bem. Ou seja, não tenho problema de assistir aos jogos com a narração
nessa língua. Essa é a segunda opção. Um dos canais hispânicos oferece todos
os jogos em tv aberta, só que, claro, com narração em espanhol.
Hoje, para assistir futebol, a não ser que haja pessoas que não falam nada de
espanhol ao meu lado, sempre assisto nesse canal em específico, quando posso.
"Por que?", você pode perguntar. A diferença de emoção na transmissão é tão
gigante que, muitas vezes, assistir aos jogos narrados em inglês dá vontade de
dormir, mesmo naqueles mais emocionantes.
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Uma pequena pausa.
Parei de escrever o texto há dois dias e hoje, quando volto, preciso dizer que
ter assistido ontem ao jogo do Brasil (3) contra a Escócia (0) e logo em
seguida ao jogo do México (3) contra a República Checa (0) foi excepcional!
Muitas alegrias juntas pelos dois times.
No fim tarde de hoje houve um outro jogo excepcionalmente emocionante. Equador
(2) contra a Alemanha (1). Jogaço e, além da satisfação de ver a Alemanha
perder, ainda ficar feliz por mais um time sul-americano a passar para fase do
mata-mata.
Fim da pausa.
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Algo engraçado quando a gente conhece o básico de alguma coisa é que quando
nos deparamos com uma novidade, com algo que não sabemos, uma luzinha parece
acender no cérebro, igual aos desenhos animados que assistíamos quando
criança.
Assistindo a um dos jogos do dia 18, em espanhol, fui lembrado do filme
brasileiro que concorreu ao Oscar esse ano, "O Agente Secreto". Daí o título
desse texto.
Um dos narradores, em algum momento, utilizou essas duas palavras em uma de
suas explosões emotivas: "Perna Surda".
Eu, naturalmente, sorri. E ri! E os contornos desse texto começaram a surgir.
O que eu não imaginava era que - mesmo sabendo que o que eu ouvi não era o que
o meu cérebro "brasileiro" queria que eu achasse que era e, mesmo tendo
entendido qual era o significado da expressão devido ao contexto em que ela
foi utilizada - eu iria aprender algo novo apenas e também quando estivesse
escrevendo esse texto.
Vocês que sabem espanhol, já devem saber o que foi que eu aprendi durante a
escrita. Para os que ainda não sabem, fiquem aqui só mais um pouquinho que já
já descobrirão.
Quando eu estudei na ETFRN nos anos 80s, um dos meus professores de inglês
introduziu à turma o conceito de palavras cognatas e, como consequência, de
palavras que parecem ser cognatas, mas que apenas parecem e que, por isso
mesmo, são chamadas de falsas cognatas.
O conceito é simples. Palavras cognatas são aquelas de línguas diferentes que
se parecem na escrita/na pronúncia e cujo significado é o mesmo ou é bem
parecido. Alguns exemplos simples: Family: Família,
Music: Música, Problem: Problema. O "problema"
surge quando as palavras se parecem, mas, na verdade, significam algo
completamente diferente. Por exemplo:
| Falsos Cognatos | |
|---|---|
| Inglês | Português |
| Intend | Pretender |
| Pretend | Fingir |
| Office | Escritório |
| Push | Empurrar |
Então, quando estamos aprendendo uma nova língua e palavras assim aparecem, o
nosso cérebro demora alguns segundos para registrar e "traduzir" a palavra
para o significado que não é aquele que já sabemos. Vem, então, a confusão.
Algumas vezes são engraçadas, outras vezes nem tanto. Apesar disso, como todo
processo de aprendizado, é errando e se confundindo que a gente arruma a
estrada e continua seguindo rumo ao hexa, quer dizer, rumo ao objetivo de
aprender a se comunicar melhor. :)
Antes de voltar ao título do texto, uma outra consideração.
Assistindo a algumas entrevistas de jogadores portugueses e tendo a alegria de
ter um amigo cabo-verdense (ou cabo-verdiano), vale mencionar um outro
detalhe. Mesmo dentro da própria língua, existem variantes das mesmas
palavras, faladas por pessoas de países diferentes. Devido à copa, uma dessas
palavras está em evidência. É a nossa palavra equipe. (Ah, time, em inglês, é
mais um falso cognato.)
Em meus papos com o amigo de Cabo Verde, ele, quando vai falar sobre os times
de futebol utiliza a palavra equipa, e não equipe, como nós
fazemos no Brasil. É algo tão simples, mas quando ouvimos pelas primeiras
vezes, algo soa estranho, bem estranho. Rapidamente, entretanto, nos
habituamos ao som, já que a diferença na palavra vem junto com o sotaque que
também é diferente, o que acaba nos ajudando a compreender o porquê da mudança
da palavra.
Voltando à Copa e à transmissão em espanhol, a palavra que eles utilizam para
equipe/equipa é, também, um cognato com relação ao português, só que, em vez
de ser A equipe/equipa é EL (O) equipo. Durante a transmissão, ouvindo os
narradores/comentaristas falarem EL equipo ou UN equipo, para mim, é
engraçado. Parece me fazer cócegas no cérebro.
O que me leva à perna surda.
Toda perna é surda.
Toda pierna es sorda.
Mas / Pero
Ni toda pierna es zurda.
Nem toda perna é canhota.
Foi assim que, apesar de eu já saber disso, eu descobri que existem pessoas
zurdas que são surdas.
E vice-versa ou viceversa.
| Falsos Cognatos | |
|---|---|
| Espanhol | Português |
| Zurda | Canhota |
| Embarazada | Grávida |
| Oficina | Escritório |
| Fecha | Data |
Para saber mais:
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P.s.: perdão, pois o texto ficou maior do que eu achei que ficaria, quando
comecei. Mas é isso, as ideias vão fluindo e precisam sair. Elas realmente
parecem ter vida própria. Provavelmente porque esses assuntos linguísticos
sempre me fascinaram e continuam me fascinando. Alguma hora volto para outras
elucubrações linguarudas sobre coisas das línguas que me atrevo a querer
conhecer um pouco mais...
P.s.2: enviei esse texto para um amigo internauta que sabe mais de linguística que eu e ele me alertou para o fato que a definição de falso cognato que dei acima é uma definição usual, mas que não é precisa. Pensei em alterar o texto e acrescentar mais sobre cognatos, falsos cognatos, heterossemânticos, etc... Só que, como quase qualquer coisa na vida, existe a explicação mais simples e as mais complexas e profundas e essas mais profundas exigem muito mais tempo e espaço para que sejam bem compreendidas. Caso desejem saber um pouco mais sobre esse assunto, recomendo bastante a leitura do artigo da Wikipédia sobre Cognatos que listei no final do texto acima.


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