Bentônico

Cavalos-marinhos são bichos esquisitos. 

Lindos, segundo alguns - eu, por exemplo; ainda assim, esquisitos.

Cavalo-marinho-de-focinho-longo (Hippocampus reidi)
Espécimes macho (esquerda) e fêmea (direita) avistados em 2001

Foto por Andreas März (
CC BY 2.0)

Quando falo esquisitos, falo em um sentido específico. Explico.

Para os falantes de espanhol, não falo esquisitos no sentido da palavra naquela língua (exquisito), já que a pronúncia e a semelhança são imensas porém com sentido bem diferente. Quer dizer, os cavalos-marinhos também são exquisitos no sentido da palavra em espanhol, mas não é nesse sentido que uso aqui. 

Vamos digressionar?

Na língua de Gabriel García Márquez (pense num livro que não gostei, o Cem Anos de Solidão!), exquisito significa "delicado, primoroso, refinado, elegante".

Desdigressionando...

Sim, são esquisitos, mas também não falo que o são como Rita Lee fala das mulheres em sua música famosa. Pelo menos não especificamente pelo mesmo motivo. Se bem que se pode argumentar que sim, mas não vou argumentar nesse sentido agora.

Aqui, eu penso no sentido geral de esquisito mesmo, naquele que nos torna únicos, ou, pelo menos, como parte de uma categoria única, distinta. É que, no sentido de ser estranho, diferente, curioso - e essa também é uma palavra curiosa, mas aí já seria digressionar demais; fica para outra hora - cada coisa que nos torna esquisito nos torna únicos, ou pelo menos, parte de um grupo único.

Cavalos-marinhos são bichos únicos pois, dentre toda a fauna conhecida, são os machos da espécie que engravidam. Bom, ele fazem parte de uma família onde outros, como os Dragões-marinhos e os Peixes-cachimbos, também compartilham da mesma esquisitice. Assim, sendo únicos, são esquisitos.

Como os cavalos-marinhos, línguas também são bichos esquisitos. 
Engravidam a partir de outras línguas, com as quais copulam, sem nenhum tipo de vergonha. 
Nós é que, muitas vezes, nos envergonhamos das relações linguísticas (sexuais ou não) e acabamos por ocultar palavras perfeitas, mesmo que esquisitas.
Por serem estranhas, diferentes, curiosas, talvez seja melhor não serem vistas para não perturbarem a ordem geral.
E, mesmo quando são conhecidas, muitas ainda nos causam estranheza por não serem aquilo que nós pensamos que são.
Quase como os cavalos-marinhos machos que não são bem o que pensamos que são.
São cavalos. Só que não são cavalos. De seu nome composto, apenas a segunda parte é verdade. São marinhos, pois só vivem no mar, em água salgada.
Alguém pode dizer: "Mas parecem com cavalos e daí o nome." Sim, é isso mesmo. Parecem.

A palavra bento, por exemplo. Creio que todos nós podemos dizer que a conhecemos. 
Se a colocamos com a primeira letra maiúscula - capitalizarmos - ela se transforma em um dos personagens mais clássicos de nossa literatura, ao lado de Capitu, Bento - Bentinho, para os íntimos - foram um dos casais mais controversos do Brasil Literário. (Sou time Capitu)
Ainda capitalizada, teremos São Bento ou São Benedito, o que acaba nos levando à ideia de bendição e, algo que é bento é bendito, como a famosa 'água benta'. Assim, algo bento é bendito e/ou foi benzido.

Cavalo-marinho é bento? Parece que não. Mas já já volto a ele.

A palavra tônico é outra que, provavelmente, todos conhecem. Algo tônico é algo que recebeu um tom, um acento, um destaque. 
Na língua - já que estamos falando dela também (qual delas?) - a sílaba tônica é a sílaba forte das palavras. Essa, muitas vezes, recebe um acento real. Por exemplo, o acento circunflexo da própria palavra tônico que, sem o acento, se torna uma pessoa, Tonico. Daí, por extensão, os tônicos são - ou eram - os remédios ou as fórmulas de líquidos que eram prescritos para fortalecerem quem os ingeria.

Não sei se os cavalos-marinhos são tônicos. Talvez sejam apenas por serem bentônicos. 

Só que ser bentônico não tem nada a ver com ser bento. Nem com ser tônico. Quer dizer, tem, mas não nos sentidos que eu falei acima.

Eu amo água tônica. 
Esse fato não tem nada a ver com o texto que estou escrevendo. 
Água tônica tem a ver com o texto.

Bento, além das definições que apresentei acima, tem uma outra definição que é muito menos conhecida e utilizada. Neste "novo" sentido, de acordo com o Dicionário Priberam, bento vem do "grego bénthos, -eos, -ous, profundeza do mar." Assim, ainda de acordo com o Priberam, na biologia/oceanografia, a palavra significa "Zona mais profunda de mar, lago ou outra massa de água." e também "comunidade de organismos que vivem no fundo de mares, rios e lagos. (Também usado no plural.)"

Cavalos-marinhos podem até não ser bentos, mas lá vivem. Vivem no bento, ou nos bentos, pois participam da comunidade que vive nos leitos dos mares onde habitam. Por viverem em bentos eles são considerados seres bentônicos, logo, seriam eles tônicos? Só na semelhança da palavra, já que o tônico de bentônico não é o mesmo. O tônico de bentônico é apenas ico. O que? Pois é. A formação da palavra bentônico é bento + n + ico (sufixo átono formador de adjetivos que indica relação). Então, nosso cavalo-marinho é bentônico sem ser tônico.

E o que a água tônica tem a ver com o texto?
Bento é relacionado a água.
Bentinho não era bento, apesar de ter sido, muito provavelmente, batizado. (Repito, sou time Capitu)
Para o bento existir, tem que haver água.
Água pode ser benta. 
Água pode ser bentônica. 
Uma dúvida minha é se pode existir água benta bentônica. Eu não conheço água benta salgada. Algum padre ou teólogo se arrisca a responder?
Água pode ser tônica.
Não acho que se pode duvidar muito disso pois, mesmo sem ser água tônica, água pode ser tônica. Pergunta a quem está com muita sede e bebe uma aguinha gelada... Ah, que delícia...

Cavalos-marinhos fascinam.
Línguas me fascinam.
Os dois temas se uniram nessa minha maluquice e espero que se você conseguiu chegar até aqui não tenha perdido o juízo também. Basta um.

Mais uma coisa. Caso a loucura nos atinja realmente e não seja por culpa de minha maluquice, ainda assim, pode ser por causa do cavalo-marinho que temos em nosso cérebro. 

Acho que você já sabia, mas não custa lembrar. Em nosso cérebro, temos o hipocampo. E hipocampo significa o que? Cavalo-marinho... Mas isso já é assunto para outro, ou outros, texto.

Uma última coisa antes das últimas coisas. Se por darem à luz eles forem como as mulheres e menstruarem, talvez a afirmação de Rita Lee também se aplique a eles. Será que é todo mês?


P.s.1: talvez você esteja se perguntando o porquê de ter um mapa da praia de Almofala no Ceará no final da postagem. Se não tiver, não tem nada não. Respondo mesmo assim. Almofala abriga um berçário natural de espécies ameaçadas, incluindo o cavalo-marinho. Mas essa não é a razão principal. Socorro Acioli, em seu livro "Oração para Desaparecer" usa Almofala, Almofalas para ser mais preciso, como lugares onde ela conta a sua história e onde, claro, aparecem cavalos-marinhos.



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