Talita

Duke, o mascote programador, tomando um café diante de uma ilha na Indonésia ouvindo uma música.
(Gerada pelo ChatGPT baseada em minha descrição)

Eu participo de um grupo no whatsapp.

Nos dias de hoje, quem não participa, não é?

Nem todo mundo gosta e com razão. Tem muitos grupos que, deuzulive!

Esse não é assim. Em tempos onde a racionalidade parece estar sendo atropelada pela falta de inteligência emocional e espiritual, pela falta de empatia completa entre as pessoas, esse grupo é quase que um oásis no meio da sensação de desesperança que às vezes sentimos.

Se você está lendo o texto quando foi postado, ali pelo final de Outubro de 2026, sabe que estamos às vésperas do segundo turno das eleições para presidente do Brasil. Essa é, talvez, uma das eleições mais importantes de nossa história. 

É a eleição da escolha entre o extremismo de uma postura antidemocrática e criminosa contra o estadismo de uma postura mais amorosa e acolhedora de um grupo que - apesar de eu não concordar com tudo deles - estimula o crescimento do indivíduo, para dar a todos a possibilidade de crescimento a partir de um ponto equitativo de partida. 

Fora o fascismo! Fora a descaração de uma política de sujeira e mentiras deslavadas apenas pra ganhar voto e enriquecer em cima do povo!

Esperancemos! Dia 25, vamos de amor, empatia e democracia. Que brilhe, mais uma vez, a estrela.

Apesar de já ter falado, essa postagem não é para falar de política. É pra falar de Talita, como diz o título.

Antes de ler o restante do texto, você tem alguma lembrança específica quando ouve, ou lê, nesse caso, o nome Talita? Vou lhe dar alguns segundos pra pensar. Pronto.

Quando eu era criança lá em Natal, naturalmente, fui para a alfabetização. Estudei em duas escolas. A primeira foi a Academia da Criança. Essa ia apenas até a primeira série, eu acho. De lá eu fui para o Centro Educacional Maristella. Nenhuma das duas existe mais a não ser na memória dos que lá estiveram...

As escolas se foram; a alfabetização ficou. Muitas das amizades também. Claro que existem lembranças ruins e desagradáveis, mas o sentimento maior é de alegria, aprendizado e amor.

E Talita? Bom, no grupo de whatsapp que mencionei, uma das participantes que entrou recentemente veio sem nome registrado e nos enviou uma mensagem. Ao respondê-la, eu, para não ser deselegante, - mas para ser engraçadinho - perguntei se o nome completo dela era "Cérebro coração e pulmão". É que no lugar do nome, ela usou emojis. 😁


Quando ela nos respondeu, ela explicou o porquê de não colocar o nome e nos falou que se chamava Talita. 

Imediatamente minha mente me levou à infância e à minha escola pré-primária, a Academia da Criança que citei acima. Não tinha certeza que tinha sido nela que conheci Talita, mas só pode ter sido lá, pois foi lá que fui alfabetizado.

E quem djabué Talita?, você pode estar se perguntando. Talita é uma menina que tinha um sonho e que ajudou muitos a serem alfabetizados. Não, Talita não foi uma menina que estudou comigo ou uma professora que me alfabetizou. Essa é Talita.

Capa da cartilha O Sonho de Talita, retirada do blog
https://gisasanti.blogspot.com/2011/03/sonho-de-talita.html

Pois é, fui alfabetizado através do "método" Talita, como muitas outras pessoas em vários lugares do Brasil. Engraçado como coisas assim nos marcam, não é?

Como eu falei em outro grupo que participo - esse de amigos de outra escola onde estudei, a ETFRN - lembro de amar desenhar o rosto dela, por ser tão fácil. Era apenas um círculo, três linhas retas, olhos, boca e nariz. Pronto, Talita estava ali comigo.

Citação do livro Quarto
de despejo.
Neste grupo da Escola Técnica, inclusive, tem um amigo de longa data que estudou comigo na mesma escola de alfabetização e que, naturalmente, também utilizou a mesma cartilha que eu. Inclusive, ele também lembrava dela. E, também como eu, lembrava de nossa professora, ou, como usávamos na época, nossa Tia. Tia Java! Seria muito legal se ainda conseguisse encontrá-la, mas a única coisa que lembramos é do primeiro nome dela e a escola não existe mais... Ficou na memória e, mais importante, no coração.

O grupo do whatsapp que mencionei no começo do texto é um grupo do Clube do Livro Condessa. Participo, desde sua criação, deste clube virtual e que bom que eu o encontrei. A turma é maravilhosa e tenho aprendido muito com todos e com as leituras que temos compartilhado. A bolha que ele nos proporciona tem nos dado a todos um alívio da loucura que se tornou o extremismo que vemos no mundo hoje.

O livro da vez é Quarto de Despejo - diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. 

Que livro duro e extremamente necessário! Lançado em 1960, infelizmente parece que foi escrito hoje, de tão atual que parece! Muito mudou, mas muito ainda continua parecendo o mesmo... Se puderem, leiam. Eu diria que é leitura indispensável.

É incrível a capacidade da autora de - através de palavras simples, e ao mesmo tempo algumas bem difíceis e rebuscadas - nos levar a visualizar as condições desumanas em que ela e todos os outros viviam naquele local, naquelas malocas, como ela mesmo fala. Ela nos diz (sic):
"... porque eu tambem sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo."
Carolina foi alfabetizada, mas parou de estudar ainda muito nova. Não chegou nem a terminar o segundo ano. Apesar disso, nesse período ela desenvolveu o gosto pela leitura e isso fez toda a diferença em sua vida.

Talita me ajudou a aprender a ler e a escrever. Em algum momento eu aprendi a gostar de ler e aqui estou eu escrevendo. E gostando.

Carolina está me ajudando a continuar gostando de ler, mas também, me ajudando a refletir sobre a leitura. Me mostrando que, independente de qualquer "desculpa" que possamos utilizar, mesmo com toda a dificuldade, mesmo com toda a fome, mesmo sem nem imaginar se um dia nossos sonhos possam começar a se tornar realidade, devemos sempre continuar sonhando.

O sonho de Talita - ou pelo menos um deles - enquanto criança, era que a sua boneca pudesse ganhar vida, falar, brincar. Qual seria o sonho dela hoje, adulta? 

Carolina tinha vários sonhos. "O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel.", mas também "Quando eu lavava o feijão pensava: eu hoje estou parecendo gente bem - vou cozinhar feijão. Parece até um sonho!" Esses são apenas dois.

Comparado a ela, nasci trilionário! Também nasci abençoado por poder estar sempre cercado de pessoas que não apenas me amavam, mas sempre fizeram de tudo para eu ser e dar o meu melhor. Além do mais, nunca passei fome! 

Quando comecei esse texto, pensava apenas em contar um pouco sobre ter "reencontrado" Talita em dois grupos do qual faço parte e que me trazem tanta alegria. Jamais pensei que o texto tomaria vida própria e me levaria a um local de imensa gratidão e esperança por dias cada vez melhores.

Carolina, depois de lançado o livro, em 1960, conseguiu sair da favela e melhorar de vida, transformando sua própria vida e a vida de muitos através da literatura e de sua história de vida.

A minha também foi tocada pela vida dela, mas não apenas pela dela.

A vida de todos que me cercam me toca sempre. Assim, o texto nostálgico termina como um texto de gratidão e de sonhos.

Aos novos amigos do Clube do Condessa, muito obrigado pelas lindas reflexões e parceria na busca por um mundo mais ledor, mais letrado, mas, acima de tudo mais justo e mais empático! Vocês são demais. Sonho que o grupo se expanda. Não apenas em tamanho, mas em alcance. Que a empatia e o amor que exsuda nas trocas de mensagens virtuais possa transbordar para o mundo físico!

Obrigado aos amigos do grupo da ETFRN pelo carinho, pelas risadas, pelas lembranças, pela amizade tanto tempo. Além do obrigado, peço também desculpas pelas inúmeras vezes que errei com cada um de vocês! Saibam que vocês todos estão dentro de mim, eternamente! Sonho que essa alegria e irmandade que sentimos ao nos encontrarmos possa ser permanente em nossas vidas. Não apenas entre nós, mas entre todas as pessoas que convivem conosco e estão ao nosso redor.

Obrigado à Professora Java. Onde quer que você esteja, saiba - e creio que você sabe - que deixou marcas profundas de amor em seus alunos. Creio que posso falar pelo menos por dois, eu e Breno, já que são os dois que sei que foram seus alunos. Sonho que o amor da marca deixada em mim pelo seu carinho e dedicação possa, um dia, se transformar em mais respeito e amor à profissão que forma todos os profissionais desse mundo!

Clichê, mas total e completamente verdade:

Sonho que se sonha só é só um sonho.

Sonhemos juntos!

⭐

--
P.s.: só para vocês terem ideia do quanto essa turma da ETFRN é especial, enquanto conversávamos sobre Talita e nossas lembranças da escola, uma das amigas foi fazendo desenhos e enviando no grupo. Enviou três e perguntei a ela se eu poderia compartilhar no meu post do blog. Ela falou que sim. Não sei o que vocês vêem. Eu vejo amor e carinho. 😍

Talita por Kwa
Desenhos por Elizângela Isidoro, que chamamos de Quasinho. Eu a chamo de Kwazyño. :)
[Talita está falando: Um abraço para os alunos Breno e Mack]
(Márcio) Breno é o meu amigo que estudou comigo na Academia da Criança, na ETFRN e na UFRN.
 

P.s.2: não conhecia a música que Duke - o mascote da linguagem de programação Java está ouvindo. Se chama Java e é cantada por Lucienne Delyle, que também não conhecia. É uma java francesa lançada  em 1956, na mesma época em que Carolina estava escrevendo seu diário. É uma java pois é uma música feita no estilo java, uma dança do início/meados do século 20 na França. A parte da letra que sai da caixa de som diz (minha tradução): "Java, o que você está fazendo?". Ah, última informação. Uma das ilhas da Indonésia, representada na imagem inicial, também se chama Java. Na mesma imagem ainda existem mais duas referências a Java que eu não mencionei aqui. Sabe quais são?

Comentários

Postagens mais populares

Chá de camomila é bom para dor de cabeça e algumas outras doenças

Cristo Redentor Tombado

Michelangelo, arte e aprendizado